sábado, 28 de fevereiro de 2009

Galeria _ 19 de 25 _ Espaço Goa _ Júlio Resende

Colectânea de Poesia _ 19 de 50 _ Os paraísos artificiais _ Jorge de Sena

Na minha terra, não há terra, há ruas;
mesmo as colinas são de prédios altos
com renda muito mais alta.

Na minha terra, não há árvores nem flores.
As flores, tão escassas, dos jardins mudam ao mês,
e a Câmara tem máquinas especialíssimas para desenraizar as árvores.

Os cânticos das aves - não há cânticos,
mas só canários de 3º andar e papagaios de 5º.
E a música do vento é frio nos pardieiros.

Na minha terra, porém, não há pardieiros,
que são todos na Pérsia ou na China,
ou em países inefáveis.

A minha terra não é inefável.
A vida da minha terra é que é inefável.
Inefável é o que não pode ser dito.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Carnaval 2009: A matrafona _ (enviado por) Natália Farias

Galeria _ 18 de 25 _ O almoço do trolha _ Júlio Pomar

Colectânea de Poesia _ 18 de 50 _ Voz numa pedra _ Mário Cesariny

Não adoro o passado
não sou três vezes mestre
não combinei nada com as furnas
não é para isso que eu cá ando
decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz
decerto fui com Isis mas disse-lhe eu que me chamava João
nenhuma nenhuma palavra está completa
nem mesmo em alemão que as tem tão grandes
assim também eu nunca te direi o que sei
a não ser pelo arco em flecha negro e azul do vento

Não digo como o outro: sei que não sei nada
sei muito bem que soube sempre umas coisas
que isso pesa
que lanço os turbilhões e vejo o arco íris
acreditando ser ele o agente supremo
do coração do mundo
vaso de liberdade expurgada do menstruo
rosa viva diante dos nossos olhos
Ainda longe longe essa cidade futura
onde «a poesia não mais ritmará a acção
porque caminhará adiante dela»
Os pregadores de morte vão acabar?
Os segadores do amor vão acabar?
A tortura dos olhos vai acabar?
Passa-me então aquele canivete
porque há imenso que começar a podar
passa não me olhas como se olha um bruxo
detentor do milagre da verdade
a machadada e o propósito de não sacrificar-se não construirão ao sol coisa nenhuma
nada está escrito afinal

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

SANTO AMADOR também merece um CAMPO DE FUTEBOL ou não? _ Filipe Fachadas





Exmos. senhores,
É neste local que as crianças de Santo Amador se divertem a jogar futebol, ou brincar às touradas.
Para quando um espaço, digno do nome de campo de futebol?
Para quando será possível aos santoamadorenses, organizar um jogo de futebol de qualidade na nossa terra?
Para os mais distraídos, Santo Amador é a freguesia com menos habitantes do concelho. Enquanto as outras freguesias do concelho dispunham de instalações para a prática do futebol, era Santo Amador quem dava uso a essas mesmas instalações. Primeiro com uma, mais tarde com duas equipas a disputar o campeonato do INATEL do distrito de Beja.
É com tristeza que passados 35 anos após o 25 de Abril, esta terra não tenha um campo decente para a prática desta modalidade. Nem desta, nem de outras.
Ao invés outras freguesias do concelho e muito bem, já iniciaram o relvamento sintético dos seus campos.
Parece-me que de todas as freguesias do concelho, salvo erro apenas o Sobral da Adiça e Santo Aleixo da Restauração dão uso aos seus campos de futebol.
Espero um dia, não sei quando fotografar um campo de futebol na minha terra, onde estas imagens terceiro mundistas desapareçam.

Galeria _ 17 de 25 _ O Beijo _ Gustav Klimt

Colectânea de Poesia _ 17 de 50 _ Mar Português _ Fernando Pessoa

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma nao é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Baile de Máscaras _ Anabela Silva







Domingo à tarde e Baile de Máscaras _ Anabela Silva









Fotos da Pinha _ Anabela Silva






Fotos da Dança de Carnaval _ Anabela Silva


Galeria _ 16 de 25 _ The Sistine Madonna _ Raffaello Santi


Colectânea de Poesia _ 16 de 50 _ O que há em mim é sobretudo cansaço _ Álvaro de Campos (Fernado Pessoa)

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Galeria _ 15 de 25 _ The woman with the roses _ Marc Chagall

Colectânea de Poesia _ 15 de 50 _ Segue o teu destino _ Ricardo Reis (Fernando Pessoa)

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Galeria _ 14 de 25 _ España, 1938 _ Salvador Dali

Colectânea de Poesia _ 14 de 50 _ Da Minha Aldeia _ Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe
de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos
nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Galeria _ 13 de 25 _ Migration _ Arpad Szenes

Colectânea de Poesia _ 13 de 50 _ O Pincel _ António Aleixo

MOTE

Fui uma noite pintar
Com um caneco emprestado;
Eu pintei sem reparar,
Pintei e fiquei pintado.

GLOSAS

Eu comecei com jeitinho
A compor o ramalhete;
Primeiro foi com azeite
E depois foi com cuspinho.
No começo era estreitinho,
Custava o pincel a entrar...
Começa a dona a gritar:
"Não me parta a tigelinha",
Mas que coisa engraçadinha,
Fui uma noite pintar...

Comecei devagarinho...
Quando fui ao outro mundo
Meti o pincel ao fundo
E parti o canequinho.
Até mesmo o pincelinho
Veio de lá todo pintado,
Eu já estava desmaiado,
Perdendo as cores do rosto;
Mas pintei com muito gosto
Com um caneco emprestado.

Vem a mãe toda zangada:
"Tem que pagar-me a vasilha...
No caneco da minha filha
Não pinta você mais nada...
...Lá isto, a moça deitada,
Sem poder levantar-se,
Com tanta tinta a pingar
No lugar da rachadela!..."
"Diga lá, que desculpe ela,
Eu pintei sem reparar!"...

Pra que vejam que sou pintor
E meu pincel nunca deixo;
Pra que saibam que o Aleixo
Não é somente cantor...
Também pinto qualquer flor
E faço qualquer bordado;
Mas aqui o ano passado,
Perdi, de pintar, o tino...
Fui pintar, fiz um menino,
Pintei e fiquei pintado.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Galeria _ 12 de 25 _ Femmes, oiseau au clair de lune _ Joan Miró

Colectânea de Poesia _ 12 de 50 _ há-de flutuar uma cidade... _ Al Berto

há-de flutuar uma cidade...

há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu... como seriam felizes as mulheres
à beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos... sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentado à porta... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no
coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Mapa de Moura e seu termo




Este mapa pertence a um manuscrito de Luiz de Almeida Cabral encontrado na Biblioteca Municipal de Moura, o qual foi posteriormente publicado pela a Câmara Municipal de Moura. Pode consultar esta publicação em suporte digital no Arquivo Digital do Alentejo.

Nesta monografia existem algumas referências a nossa freguesia, mas pedimos a vossa atenção ao Testamento da Dona Ângela de Moura, embora não seja muito perceptível, lançamos o repto para que a descubra...

Vamos lá ver se conseguem...

Quer uma ajuda? Consulte a página 29…

(espero que aqueles que já sabem fiquem sossegados, um pouco de pesquisa e interpretação do textos não faz mal a ninguém...)

Galeria _ 11 de 25 _ Fernando Pessoa _ Almada Negreiros

Colectânea de Poesia _ 11 de 50 _ A concha _ Vitorino Nemésio

A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fechada de marés, a sonhos e a lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhadosa de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta pelo vento, as salas frias.

A minha casa... Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Galeria _ 10 de 25 _ Brut 300 TSF _ Amadeo de Souza-Cardoso


Colectânea de Poesia _ 10 de 50 _ Pedra filosofal _ António Gedeão

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Galeria _ 09 de 25 _ As duas Fridas _ Frida Kahlo

Colectânea de Poesia _ 09 de 50 _ Em todas as ruas te encontro _ Mário Cesariny

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

O rapaz do pijama às riscas


Quem não se recorda do filme "A Vida É Bela" do Roberto Benigni? Actualmente surgiu a adaptação ao cinema do livro "O Rapaz do pijama às riscas" de John Boyne, assente na visão de uma criança de um dos crimes mais bárbaros do século passado, o holocausto nazi...

Para abrir o apetite, fica o trailer em inglês:
http://www.boyinthestripedpajamas.com/#/trailer

Galeria _ 08 de 25 _ Guernica _ Pablo Picasso

Colectânea de Poesia _ 08 de 50 _ Trova do vento que passa _ Manuel Alegre

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Quatro folhas tem o trevo
liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade
aqueles pra quem eu escrevo.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de sevidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Colectânea de Poesia _ 07 de 50 _ Desespero _ José Carlos Ary dos Santos

Não eram meus os olhos que te olharam
Nem este corpo exausto que despi
Nem os lábios sedentos que poisaram
No mais secreto do que existe em ti.

Não eram meus os dedos que tocaram
Tua falsa beleza, em que não vi
Mais que os vícios que um dia me geraram
E me perseguem desde que nasci.

Não fui eu que te quis. E não sou eu
Que hoje te aspiro e embalo e gemo e canto,
Possesso desta raiva que me deu

A grande solidão que de ti espero.
A voz com que te chamo é o desencanto
E o espermen que te dou, o desespero.

José Carlos Ary dos Santos

Galeria _ 07 de 25 _ Biblioteca _ Vieira da Silva

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Galeria _ 06 de 25 _ Mulheres no Jardim _ Claude Monet

Colectânea de Poesia _ 06 de 50 _ Fogo e Ritmo _ Agostinho Neto

Sons de grilhetas nas estradas
cantos de pássaros
sob a verdura úmida das florestas
frescura na sinfonia adocicada
dos coqueirais
fogo
fogo no capim
fogo sobre o quente das chapas do Cayatte.

Caminhos largos
cheios de gente cheios de gente
em êxodo de toda a parte
caminhos largos para os horizontes fechados
mas caminhos
caminhos abertos por cima
da impossibilidade dos braços.
Fogueiras
Dança
Tamtam
Ritmo
Ritmo na luz
ritmo na cor
ritmo no movimento
ritmo nas gretas sangrentas dos pés descalços
ritmo nas unhas descarnadas

Mas ritmo
ritmo.

Ó vozes dolorosas de África!

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Galeria _ 05 de 25 _ Fuga _ Wassily Kandinsky

Colectânea de Poesia _ 05 de 50 _ Soneto do amor total _ Vinicius de Moraes

Amo-te tanto meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te enfim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Galeria _ 04 de 25 _ Moth _ Paula Rego


Colectânea de Poesia _ 04 de 50 _ Morreu ao amanhecer _ Federico García Lorca

Noite de quatro luas
e uma única árvore,
com uma única sombra
e um único pássaro.

Busco na minha carne as
pegadas de teus lábios.
Beija a nascente o vento
sem o tocar.

Levo o Não que me deste,
sobre a palma da mão,
como um limão de cera
quase branco.

Noite de quatro luas
e uma única árvore.
Na ponta de uma agulha
está meu amor – girando!

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Salazar

O conteúdo deste post é impróprio para menores de 18 anos… Para ver integralmente terá de seleccionar o fundo deste post...


Sempre ouvi dizer que Salazar fartou-se de foder os portugueses... O que não sabia é que era um garanhão



http://videos.sapo.pt/SppEn5M51fibS431z7au

Galeria _ 03 de 25 _ O Grito _ Edvard Munch

Colectânea de Poesia _ 03 de 50 _ Porque _ Sophia de Mello Breyner Andresen

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Galeria _ 02 de 25 _ O Fado _ José Malhoa

Colectânea de Poesia _ 02 de 50 _ Amar _ Florbela Espanca

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...